"Nunca se sabe em Monsanto,
que as águias roçam com a asa...
Se a casa nasce da rocha
Se a rocha nasce da casa".
Quero tanto falar e escrever sobre esta Aldeia, dizendo tudo e transmitindo todos os sentimentos que me assolam o pensamento, que acabam por passar dias e semanas sem conseguir concentrar-me o suficiente para o fazer. E porque como já disse anteriormente, sozinha não consigo falar de tudo, sirvo-me de alguns textos que encontro aqui e ali e misturando-os com as minhas palavras consigo dar uma ideia ainda que vaga de tudo o que podemos ver e apreciar. A aldeia de Monsanto exibe-se, airosa, no alto da íngreme colina.
Faz-se difícil, obrigando o visitante a uma subida esforçada, a primeira de muitas, para se deixar apreciar. Curva após curva, Monsanto vai-se revelando aos poucos, segura de que tem muito para oferecer.
Não é para menos: afinal, trata-se da aldeia mais portuguesa de Portugal, aquela que arrebatou a vitória do concurso promovido, em 1938, pelo Secretariado de Propaganda Nacional do Estado Novo, dirigido por António Ferro. Ser, na opinião do júri composto por etnógrafos, poetas e escritores, a mais característica povoação do país, a menos "penetrada pela civilização dos outros", valeu-lhe o Galo de Prata, troféu cuja réplica permanece até hoje no cimo da Torre do Relógio ou de Lucano, um dos seus mais conhecidos monumentos.
Embora tornada famosa por tal feito, Monsanto não é apenas uma espécie de "Miss Portugal" na reforma, que tenta envelhecer conservando a beleza de outrora. Lugar muito antigo, com registo de presença humana desde o Paleolítico, distingue-se, para além do seu passado histórico, pela população, pouco mais de uma centena de pessoas que persiste orgulhosamente em defender as tradições, em preservar a sua identidade.
Antes de entrar na aldeia pode-se observar a magnifica paisagem que se desfruta do baluarte, que hoje se utiliza como estacionamento.
Algumas casas usam rochas como tecto ou parede.
Mas mesmo que se seja medroso, e alguns pareçam estar em equilíbrio precário é pouco provável que se despenhem no momento exacto em que vai a passar por eles.
Detenha-se na Igreja Matriz ou de São Salvador, provavelmente construída no século XV. Alvo de reforma três séculos depois, a sua fachada ainda conserva elementos antigos, nomeadamente o portal românico. A entrada faz--se pela porta lateral, à esquerda do edifício. O interior surpreende, pois, graças ao restauro agora concluído, tudo reluz, dos bancos ao altar-mor e aos vitrais, antes inexistentes.
Para conhecer Monsanto não há como começar pelo princípio, ou seja, pelo Castelo, a 758 metros de altitude, cujas muralhas protegeram a povoação durante séculos. Encha-se de fôlego para a subida e siga as setas que indicam o caminho. Durante o percurso, contemple os enormes pedregulhos que ornamentam as bermas.
Subindo a chamada "Via Sacra", passa-se pela Gruta
pelo miradouro da Campina,
junto do Forno Comunitário de onde se tem uma vista sobre toda a aldeia.
Pode ver-se daí a "casa de uma só telha" com uma particularidade interessantissima, o telhado é feito de rocha granitica. Devido às caracteristicas da região era frequente fazer-se este tipo de aproveitamento.
Suba a Rua do Castelo
A antiga fortificação de Monsanto apresentava duas portas: a Principal e a Porta da Traição.
Os autores da edificação deste Castelo foram os Templários - sob ordens de D. Gualdim Pais, também responsável pela fundação dos castelos de Tomar e Almourol - aos quais D. Afonso Henriques doou, em 1165, estas terras conquistadas aos mouros.
Várias vezes mandado reconstruir por sucessivos monarcas, o castelo medieval em pedra granítica viria a sofrer um terrível acidente no século XIX: foi parcialmente destruído, numa noite de Natal, pela explosão do paiol de munições, uma fatalidade à qual sobreviveram as duas torres, a do Peão, primitiva torre de vigia, e a de Menagem.
Visite, também, as ruínas da Capela de São Miguel, que ali resiste desde o século XII, e a Igreja de Santa Maria do Castelo, remodelada nos finais do século XVII, bem como as sepulturas antropomórficas e as covas escavadas na rocha, as duas últimas de origem ainda pouco esclarecida.
Mais do que a História, que nem todos conhecem com rigor, Monsanto cultiva os seus mitos. Conversando com as pessoas da aldeia rapidamente se fica a saber que as referidas covas são, afinal, gamelas nas quais a mulher de um antigo governador mandava servir sopa aos pobres.
Actualmente, pelo rigor da conservação e exotismo dos seus recantos merece a designação de aldeia histórica. Monsanto é uma vila repleta de usos e costumes com forte carga simbólica, conforme podemos analisar através do seu artesanato (exº Marafona)
O castelo é protagonista de uma festividade anual, a Festa de Santa Cruz, realizada no primeiro domingo de Maio, que inclui uma simulação de outra lenda, conhecida como do bezerro: depois de terem estado cercados pelos mouros durante longo período, os monsatinos terão decidido deitar, lá do alto, um bezerro com o estômago cheio de cereais, o que levou o invasor, convencido de que ainda lhes restavam muitos mantimentos, a desistir do cerco. Na reconstituição, o animal é actualmente substituído por cântaros de barro caiados de branco e decorados com fitas e flores.
Relaxe, pois, por esta altura, já subiu praticamente tudo o que havia para subir. Depois da primeira abordagem, a Miss Portugal 1938 baixa a guarda, dá-se a conhecer sem exigir especial esforço físico.
Terra de rara beleza, onde o granito e a força humana desempenham o papel principal, "Monte Santo" é o carismático baluarte da fronteira do Erges, tão valoroso que se dizia que "Quem conquista Monsanto, conquista o mundo".
Relembramos então, Saramago que em visita a Monsanto afirmou "Devemos entender o que há de pedra nas pessoas, descobrir o que das pessoas, descobrir o que das pessoas passou à pedra".



2 comentários:
"aquela que arrebatou a vitória do concurso promovido, em 1938, pelo Secretariado de Propaganda Nacional do Estado Novo, dirigido por António Ferro."
Nunca me tinha perguntado o porquê de se falar sempre em Monsanto como a "aldeia mais portuguesa de Portugal". Agora já sei!
Olhando estas fotos, tem uma que é igual a cidade da Italia que minha mãe nasceu, acho maravilhoso a construção, e toda a história em si.
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